A pessoa viveu anos com o companheiro, dividiu casa, contas e planos, e nunca assinou um papel de casamento. Agora, no meio do luto, surge uma pergunta fria: a pensão por morte união estável existe para quem nunca casou no civil? Existe, e a resposta pode definir como a família se sustenta nos meses seguintes.
No meu escritório, em Recife, recebo companheiras e companheiros que acham que, sem certidão de casamento, não têm direito a nada. Costumo dizer a eles: “a lei reconhece a união estável, mas pede prova. O desafio quase nunca é o direito, e sim reunir os papéis certos antes que o tempo passe”. Vou mostrar quais papéis valem, por quanto tempo a pensão dura e qual prazo você não pode perder.
Pensão por morte união estável: o companheiro ou a companheira tem o mesmo direito do cônjuge, desde que o INSS reconheça a união. A lei exige início de prova material, produzido em até 24 meses antes da morte, e não aceita só testemunhas. A duração depende da idade, do tempo de união e das contribuições do falecido.
Atualizado em outubro de 2026.
Pensão por morte união estável: quem tem direito?
Tem direito o companheiro ou a companheira de segurado do INSS que faleceu, e a lei os coloca na mesma classe do cônjuge. Segundo o INSS, a primeira classe de dependentes reúne cônjuge, companheiro e filhos menores de 21 anos, ou inválidos e com deficiência, e a dependência econômica entre eles é presumida. Ou seja, você não precisa provar que dependia do falecido. Precisa provar a união.
União estável é a convivência pública, contínua e duradoura entre duas pessoas, com o objetivo de constituir família. Desde 2011, quando o Supremo Tribunal Federal julgou a ADI 4277 e a ADPF 132, o direito vale também para casais do mesmo sexo. Escritura em cartório ajuda, mas a lei não a exige.
O falecido precisava ser segurado na data da morte, receber benefício ou já ter direito adquirido a se aposentar. Quando ele perdeu a qualidade de segurado antes de morrer, a análise muda e exige olhar cada caso. Se a sua dúvida envolve esse ponto, veja como funciona o acompanhamento de um advogado de pensão por morte.
Como provar a pensão por morte união estável com documentos?
Você prova com documentos de período próximo à morte. O artigo 16, parágrafo 5º, da Lei 8.213/1991, com a redação da Lei 13.846/2019, exige início de prova material contemporânea dos fatos, produzido em período não superior a 24 meses antes do óbito. A lei não admite prova exclusivamente testemunhal, salvo caso fortuito ou força maior.
Em linguagem simples: sem papel recente, o pedido emperra. Fotos antigas contam a história, mas o INSS procura documentos que mostrem a união perto da morte. A tabela abaixo organiza as provas mais usadas e o que cada uma demonstra.
| Documento | O que prova | Cuidado |
|---|---|---|
| Escritura pública ou declaração de união estável em cartório | Existência e início da união | Vale mais quando existe antes da morte; a feita depois exige reforço |
| Contas de luz, água, internet ou contrato de aluguel no mesmo endereço | Vida em comum | Pegue documentos dos 24 meses anteriores ao óbito |
| Plano de saúde, seguro de vida ou Imposto de Renda com o companheiro como dependente | Reconhecimento da relação por terceiros | Peça a ficha de inclusão na operadora ou a declaração entregue |
| Conta bancária, cartões ou financiamento em comum | Vida financeira compartilhada | Extratos devem mostrar movimentação recente |
| Certidão de nascimento de filho em comum | Vínculo familiar | Não prova sozinha que a união durava até a morte |
| Despesas médicas, funerárias ou de imóvel em nome do casal | Cuidado e responsabilidade mútuos | Guarde recibos com o nome de ambos |
| Fotos, mensagens, viagens e redes sociais | Rotina do casal | Reforçam o conjunto, mas não substituem documentos |
Quanto mais variada e recente for a prova, mais forte é o pedido. Se a documentação for pequena, ainda existe caminho: a ação judicial de reconhecimento de união estável, na qual testemunhas e outras provas passam por um juiz.
Pensão por morte união estável: por quanto tempo ela dura?
Depende de três fatores: quanto tempo a união durou, quantas contribuições o falecido tinha e qual era a idade de quem recebe na data do óbito. A regra mais dura é a de 4 meses. Segundo o INSS, a pensão dura só 4 meses quando o segurado morre sem ter pago 18 contribuições mensais ou quando o casamento ou a união durava menos de 2 anos antes da morte. A lei prevê exceção quando a morte vem de acidente ou de doença profissional ou do trabalho.
Cumpridos esses requisitos, a duração varia conforme a idade na data do óbito. A tabela vale para mortes a partir de 1º de janeiro de 2021, segundo o INSS:
| Idade do beneficiário na data do óbito | Duração da pensão |
|---|---|
| Menos de 22 anos | 3 anos |
| 22 a 27 anos | 6 anos |
| 28 a 30 anos | 10 anos |
| 31 a 41 anos | 15 anos |
| 42 a 44 anos | 20 anos |
| 45 anos ou mais | Vitalícia |
O beneficiário inválido ou com deficiência recebe enquanto durar a condição, respeitados os prazos mínimos da tabela. As faixas de idade acompanham a expectativa de sobrevida da população e podem mudar, então confirme a tabela vigente na data do óbito. Para o assunto específico, leia quando a pensão por morte é vitalícia.
Qual o prazo para pedir a pensão por morte?
O prazo é de 90 dias após a morte. Se você pedir dentro dele, a pensão vale desde a data do óbito. O artigo 74 da Lei 8.213/1991 dá 180 dias para filhos menores de 16 anos. Passado o prazo, o direito não se perde, mas o pagamento começa só na data do requerimento, e você abre mão dos meses iniciais.
Por isso, vale protocolar o pedido dentro dos 90 dias mesmo sem toda a documentação e completar a prova durante o processo. O pedido sai pelo Meu INSS, sem precisar ir a uma agência, salvo para comprovação ou perícia.
Seu caso se parece com isso?
Procure orientação o quanto antes se você se reconhece em um destes sinais:
- Vocês nunca formalizaram a união e você tem poucos documentos dos últimos dois anos.
- O INSS pediu documentos que você não sabe onde conseguir, ou já negou o pedido por “falta de prova da união”.
- O falecido também tinha ex-esposa, ex-companheira ou outra pessoa que se diz companheira.
- A morte aconteceu há mais de 90 dias e você ainda não pediu.
- A união durava menos de 2 anos e você teme receber só 4 meses.
Fale com a Dra. Tarcila no WhatsApp e me conte: há quanto tempo vocês viviam juntos, quando foi a morte e quais documentos você já tem. Com essas três informações, eu consigo dizer o que falta.
Quanto vale a pensão por morte união estável, com exemplo em números?
O valor segue a Emenda Constitucional 103/2019. Conforme o artigo 23 da emenda, a pensão equivale a uma cota familiar de 50% do valor da aposentadoria que o segurado recebia, ou daquela a que teria direito se fosse aposentado por incapacidade permanente na data da morte, acrescida de 10 pontos percentuais por dependente, até o limite de 100%.
Veja um exemplo hipotético. Um segurado, homem, com média salarial de R$ 5.000 e 25 anos de contribuição teria uma aposentadoria por incapacidade de 70% da média (60% mais 2 pontos por ano acima de 20 anos), ou R$ 3.500. Com um único dependente, a companheira, a pensão seria de 60% desse valor, ou R$ 2.100. Se houvesse também um filho menor, o conjunto subiria a 70%, ou R$ 2.450. Quando o filho deixasse de ser dependente, a cota dele cessaria e não reverteria para a companheira, e a pensão voltaria a R$ 2.100.
Há uma exceção: se houver dependente inválido ou com deficiência grave, a pensão corresponde a 100% do valor, até o teto do Regime Geral. A conta real depende do histórico de contribuições e do salário mínimo vigente, por isso peça simulação antes de planejar o orçamento.
Como fica a pensão por morte união estável se o falecido tinha ex-esposa?
Se há mais de um dependente da mesma classe, a pensão se divide entre eles. A ex-esposa ou ex-companheira que recebia pensão alimentícia, por exemplo, pode ter direito à sua cota. Já a existência de duas relações ao mesmo tempo tem um limite: no Tema 529, o Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2020, que a existência de casamento ou de união estável anterior impede reconhecer outra união estável para o mesmo período, inclusive para fins previdenciários, por causa dos deveres de fidelidade e de monogamia.
Isso significa que a data de início de cada relação pesa mais do que o sentimento. O INSS costuma pedir documentos dos dois lados e pode negar ou limitar o benefício quando há dúvida. Quem enfrenta essa disputa precisa organizar a linha do tempo. Tratamos do assunto em divisão de pensão por morte entre ex-esposa e companheira.
Qual a importância do advogado em um pedido de pensão por morte?
Muitos pedidos caem não porque o direito não existe, mas porque a prova chega desorganizada. O advogado previdenciário avalia o conjunto de documentos, identifica lacunas, acompanha as exigências no Meu INSS, confere a qualidade de segurado do falecido, calcula o valor devido e discute a duração. Quando a via administrativa não funciona, entra com a ação para reconhecer a união e cobrar os atrasados. Nenhum profissional garante o resultado, porque o juiz e o INSS decidem com base na prova.
Há também o lado humano. No luto, ter alguém que cuide da burocracia dá espaço para a família respirar. Costumo lembrar que isso não é “ficar em cima do dinheiro”: é buscar o que a lei reserva a quem dividiu a vida com o segurado.
Como organizar a prova da pensão por morte união estável, passo a passo?
- Liste os documentos que você já tem. Mesmo que pareçam poucos, anote tudo o que mostra a vida em comum.
- Procure documentos dos 24 meses antes da morte: contas, plano de saúde, Imposto de Renda, extratos e comprovantes de residência.
- Peça cópias onde for possível. Operadora de saúde, banco, condomínio e empresa do falecido costumam fornecer.
- Guarde fotos e mensagens recentes. Elas reforçam o conjunto, mas não substituem os documentos.
- Anote nomes de testemunhas. Vizinhos, familiares e amigos podem depor se o caso for à Justiça.
- Baixe o extrato do CNIS do falecido para conferir contribuições e vínculos.
- Dê entrada no pedido dentro de 90 dias e acompanhe as exigências no Meu INSS.
Dica do especialista
“Se você vive em união estável e ainda não tem nada formalizado, faça isso hoje. Uma escritura pública custa pouco perto do transtorno de provar a relação depois. E guarde sempre um documento que mostre o mesmo endereço do casal. Parece pouco, mas costuma ser decisivo.” — Tarcila Pacheco, advogada.
Tarcila Pacheco é advogada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-graduada em Direito Previdenciário pelo ICDs e CEO do escritório Tarcila Pacheco Advocacia, em Recife. É especialista em casos de PCD e planejamento previdenciário.
Ficou com dúvida sobre o seu caso? Mande uma mensagem para a Dra. Tarcila no WhatsApp, conte o que já aconteceu e quais documentos você tem. Assim eu consigo dizer por onde começar.
Perguntas frequentes sobre pensão por morte união estável
Preciso de certidão de união estável para receber a pensão?
Não é obrigatória, mas ajuda muito. O INSS aceita outros documentos como início de prova material, desde que mostrem a união em período de até 24 meses antes da morte.
Só testemunhas bastam para provar a união?
Em regra, não. A lei exige início de prova material contemporânea, e a prova só testemunhal vale apenas em situações excepcionais, como caso fortuito ou força maior.
Casal do mesmo sexo tem direito à pensão por morte união estável?
Sim. O Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo em 2011, e ela gera os mesmos direitos de dependente, desde que seja comprovada.
A pensão por morte união estável é vitalícia?
Depende. Será vitalícia se o companheiro tinha 45 anos ou mais na data do óbito, segundo a tabela do INSS para mortes desde 2021, e se cumpriu os requisitos de união e de contribuições. Também pode durar enquanto existir invalidez ou deficiência.
Quanto tempo tenho para pedir a pensão por morte?
O ideal é pedir em até 90 dias da morte para receber desde a data do óbito. Depois disso, o direito permanece, mas o pagamento começa na data do pedido.
E se o INSS negar o pedido de pensão?
É possível recorrer na esfera administrativa ou ir à Justiça. Muitas vezes, uma ação reconhece a união estável e discute o pagamento desde a data correta.
Posso receber a pensão e continuar trabalhando?
Em regra, sim, porque a pensão por morte não impede o trabalho. A acumulação com outras pensões do mesmo regime e com aposentadorias tem limites previstos na Emenda Constitucional 103/2019 e exige análise caso a caso.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma análise jurídica individual — é necessária uma análise individualizada para garantir o melhor direito aplicável ao seu caso.
Chame a Dra. Tarcila Pacheco no WhatsApp e organize a sua prova da união estável antes que o prazo ou os documentos se percam.




